domingo, 7 de agosto de 2016

Como uma ausência





Tempo de verão, tempo de descanso,
tempo de ausências!



Deixo-vos as rosas
 

Eu vou com as aves
 
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(Obrigada, Eugénio de Andrade)
 
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Comme une absence, Anouar Brahem

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A trepadeira invulgar

 
 
Parece ser uma trepadeira vulgar, aquelas do tipo 
ninguém dá nada por ela.
Guarda contudo, no segredo dos seus genes,
duas pérolas de valor incalculável.
Sem pressas, começa por oferecer-nos o fulgor das suas surpreendentes flores.
E estas trazem já, bem escondida no seu cerne, a outra pérola:
os seus frutos de sabor único, incomparável!
As aparências podem iludir, mesmo no que respeita a trepadeiras
 - ou dizendo de outro modo,
um olhar descuidado pode sempre induzir-nos em erro!
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In your own sweet way, Miles Davis



domingo, 24 de julho de 2016

Do mal o menos!

 
A Donaminha diz que eu, apesar de coxo,
 continuo elegante, gracioso, belo!
 A mão esquerda doi-me muito,
 mas agora que sei o que ela pensa de mim,
custa muito menos suportar a dor!
E nem me importo de coxear!
 
 
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Sweet and lovely, Thelonious Monk/John Coltrane at Carnegie Hall
 
 


domingo, 17 de julho de 2016

A magnólia de folha perene



Ao fim de quase vinte anos, a magnólia floriu!
Timidamente, mas floriu!

 
Valeu a pena esperar!
O que são afinal vinte anos na vida de uma magnólia?
 
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Ain't she sweet, Benny Carter
 



terça-feira, 12 de julho de 2016

Fuga para o passado


Quando o presente é um rio de perplexidades
 e o futuro ainda está muito longe,
 o passado é um local de descanso!

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Yesterdays, Miles Davis





sábado, 2 de julho de 2016

Não se pode morar nos olhos de um gato



 
ONDE ENTÃO?
 
 
Este segundo romance de Ana Margarida de Carvalho,
 tal como o primeiro, é um livro singular, 
rigoroso, inteligente, exaltante, exigente, ímpar,
fulgurante, incómodo, irónico e belíssimo (uff!).
Obrigatória a sua leitura!
 
 
 
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Almost like being in love, Modern Jazz Quartet, Sonny Rollins
 
 

 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O princípio do desmoronamento



Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno
E disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste?
É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar.
Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade.
Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno,
Nem sequer contra o insólito, contra o desespero.
Tu disparas contra a luz.
Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas.
Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira.
Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos querem paz.
Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar.
Há tantos meses que não chove – reparaste?
A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir.
Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa.
Quem deve. Quem empresta. Quem paga.
Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro.
Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás adormecer.
Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos.
Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao teu gesto,
Nós não queremos disparar.

(Filipa Leal)
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Sur l'infini bleu, Anouar Brahem