domingo, 1 de maio de 2016

Os outros e a diferença

 
 
A minha morte é melhor que a tua!

"...O longe é um lugar sem nome. Não o conhecemos. Não existe. Não nos comove. Não mobiliza o fluxo de notícias. Fala-se durante os instantes iniciais e depois é como se o nada constituísse o quotidiano daquela gente de quem nada sabemos. Não sabemos como riem. Não sabemos como beijam os filhos. Não sabemos como amam. Não sabemos como dançam. Não sabemos se dançam. Não sabemos nada dos homens, das mulheres, das crianças do Iraque, do Iémen, do Chade, da Costa do Marfim, do Mali, da Síria, de Kabul, de Islamabad. Não sofremos com o que não conhecemos. Não compreendemos o que não conhecemos. Não vivemos os desgostos, a dor daqueles que desconhecemos. A ignorância é um lugar muito distante. Quem vive naquele longe são pessoas. Podem morrer 70, 100, 200 e não será o mesmo que morrerem 5, 10, 20, em Paris, Londres, Bruxelas ou Washington. A contabilidade das mortes é pornográfica. Mas não há maior pornografia moral do que deixarmo-nos enredar naquela voraz máquina noticiosa que faz perceber como não somos iguais. Nem na morte.
Porque a minha morte é melhor que a tua."
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(texto da autoria de Valdemar Cruz,
retirado do Expresso online de 31/03 -)

 
 
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 Nocturno para piano nº20, F. Chopin (Maria João Pires)
  
 

9 comentários:

Vieira Calado disse...

A comunicação dita social só trata do que lhes parece dar dinheiro.
Saudações poéticas!

Luis Filipe Gomes disse...

A morte será melhor ou pior, pouco importa. O sofrimento e a dor são iguais e ai de nós se soubermos o que são um e outra.

São disse...

Este excelente texto de Cruz trouxe-me à memória o que Eça escreveu magistralmente sobre o mesmo assunto.

Que seja muito bom o teu Maio|

Rui Fernandes disse...

Juro que li o texto várias vezes e, confesso, não sei se gostei, se desgostei. A primeira frase é convidativa. Teria gostado muito se ficasse por aqui. A lonjura e o inominado são dois termos que, juntos, são explosivos. Já o misturar lonjura com o ignorado parece-me levar a um beco de contradições sem retorno.
Vejamos: critica-se a ignorância que o ser humano tem por hábito cultivar para fugir à dor. O que está longe e se desconhece é-nos indiferente. É a conduta de avestruz. De quem não quer saber que está corroído de cancro. Porque a vida são dois dias e só interessa o momento passante. Por outro lado: critica-se a notícia que convoca o longe à nossa presença banalizando-o. Quanto mais outro, menos sofrido o sofrimento. O meu sofrimento é qualidade intensa, o do outro é quantidade contável. A notícia enche-se, precisamente, da contabilidade. O quanto muito não faz sofrer, impressiona. E, porque impressiona, a vida continua. Evitar ou banalizar, eis a questão.
Uma breve nota sobre a morte. A morte não dói, o que dói é a vida. Toda a vida e não só o fim da vida. Porque à alegria de viver juntamos a consciência de viver. O que, prudentemente, não fazem os meus gatos.
Só compreenderemos o que está longe, nomeando-o. E para nomear teremos que nos aproximar. O mandamento de Cristo é inútil. Só se ama o outro quando nós é próximo. Precisamos de cada nome para nos lembrarmos de cada cara. Fora isso, tudo é anonimato. Fora isso, tudo é vala comum. Mas, depois de morto, quem se importa?
Não me ocorre a que texto do Eça a São se refere. Podes dar uma dica, São?

Majo disse...

~~~
Não há como ficar indiferente...

Por vezes,
chocados, percebemos que estamos
a ser manipulados por imagens...
Sem nada podermos fazer...

~~~ Beijinhos, MJ. ~~~
~~~~~~~~~~~~~~~~

Mar Arável disse...

... entretanto o chamado estado islâmico

é uma criação dos cínicos

Luis Filipe Gomes disse...

Rui acho que a São se refere a A Cidade e as Serras; uma leitura do jornal vai descrevendo uma série de acidentes e desgraças pelo mundo fora até que culmina com a tragédia máxima da Luisinha que partiu uma perna. Depois de muitas mortes o que nos dói é a dor de quem conhecemos tal como o Rui também diz.
Desculpa a intromissão São!
Obrigado pelo espaço que me permites Justine!

Outro disse...

Um post que pensa, que faz pensar!... será o mesmo?

O mandarim...que é assassinado com um toque de sineta.

Que importa que morra o sem-nome, o não-conhecido, o que ... vá morrer longe?

Ou.. tudo o que não está próximo de nós não é vida nossa porque não é nós?


Duarte disse...

... e até pode ser linda, sendo morte.
Abraços de vida