sexta-feira, 24 de junho de 2016

O princípio do desmoronamento



Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno
E disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste?
É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar.
Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade.
Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno,
Nem sequer contra o insólito, contra o desespero.
Tu disparas contra a luz.
Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas.
Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira.
Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos querem paz.
Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar.
Há tantos meses que não chove – reparaste?
A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir.
Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa.
Quem deve. Quem empresta. Quem paga.
Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro.
Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás adormecer.
Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos.
Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao teu gesto,
Nós não queremos disparar.

(Filipa Leal)
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Sur l'infini bleu, Anouar Brahem


 
 

sábado, 18 de junho de 2016

Yesterdays



Se ele se aproximasse um pouco, ainda fazia uma tentativa...


Oh! Foi-se embora!
 Até parece que se riu de mim antes de levantar voo...



Dantes era tão fácil apanhá-los...
 
 
 
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Yesterdays, Miles Davis
 
 
 

 
 
 

domingo, 29 de maio de 2016

Da necessidade da metafísica



SERVE-NOS A VIDA, MAS NÃO NOS CHEGA...
 

.(frase de Mia Couto)
.(agradecendo a Kant e Schopenhauer )


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E la nave va, Anouar Brahem



sábado, 21 de maio de 2016

Devagar se vai ao longe...



 
Mais um instante e conseguia escapar...
 
 
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Sur l'infini bleu, Anouar Brahem
 
 

domingo, 15 de maio de 2016

O Túnel sem tempo




Entra-se aqui e é como se se entrasse num túnel do tempo!
As abelhas dedicam-se à recolha do néctar;
o perfume da glicínia substitui os maus cheiros da vida;
e, a envolver tudo, um silêncio primordial pleno de sons.
Aqui debaixo não se envelhece!
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Spring is here, Bill Evans Trio



domingo, 8 de maio de 2016

Sinais perenes de efemeridade

 
Após  metamorfose de uma semente
em silêncios subterrâneos, impôs-se no jardim:
 frágil como um sentimento,
 suave como uma carícia,
 delicada como um beijo breve.
Amanhã já o vento a levou...

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Ain't she sweet, Benny Carter, 1957

domingo, 1 de maio de 2016

Os outros e a diferença

 
 
A minha morte é melhor que a tua!

"...O longe é um lugar sem nome. Não o conhecemos. Não existe. Não nos comove. Não mobiliza o fluxo de notícias. Fala-se durante os instantes iniciais e depois é como se o nada constituísse o quotidiano daquela gente de quem nada sabemos. Não sabemos como riem. Não sabemos como beijam os filhos. Não sabemos como amam. Não sabemos como dançam. Não sabemos se dançam. Não sabemos nada dos homens, das mulheres, das crianças do Iraque, do Iémen, do Chade, da Costa do Marfim, do Mali, da Síria, de Kabul, de Islamabad. Não sofremos com o que não conhecemos. Não compreendemos o que não conhecemos. Não vivemos os desgostos, a dor daqueles que desconhecemos. A ignorância é um lugar muito distante. Quem vive naquele longe são pessoas. Podem morrer 70, 100, 200 e não será o mesmo que morrerem 5, 10, 20, em Paris, Londres, Bruxelas ou Washington. A contabilidade das mortes é pornográfica. Mas não há maior pornografia moral do que deixarmo-nos enredar naquela voraz máquina noticiosa que faz perceber como não somos iguais. Nem na morte.
Porque a minha morte é melhor que a tua."
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(texto da autoria de Valdemar Cruz,
retirado do Expresso online de 31/03 -)

 
 
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 Nocturno para piano nº20, F. Chopin (Maria João Pires)