quarta-feira, 19 de outubro de 2011

OS LIMÕES AMARGOS DE CHIPRE

Do outro lado, o território ocupado pela Turquia. Barricadas simbólicas de uma realidade improvável à luz de qualquer ordem internacional. Deste lado, um silêncio pesado.
Do outro lado, casas em ruinas e a desolação em torno. Uma linha verde imaginária, mas que todos vêem e sentem na pele, divide Nicósia ao meio, separando para norte um terço do território nacional.
Deste lado, um silêncio triste.
Chipre, país ocupado.

Dizem-nos que viviam em harmonia na mesma aldeia, em comunidade homogénea, os vizinhos cipriotas-gregos e cipriotas-turcos, apesar das diferenças de língua e religião. Agora falam-nos de cipriotas-gregos que tiveram de abandonar as suas casas, partir para sul e recomeçar vida. Falam-nos ainda, em surdina mas não resignados, de muitos vizinhos desaparecidos .

Chipre, país ferido.


Sabe-se que a ilha é rica. Pela sua posição estratégica, pelo clima, pelo cobre, pelo gás natural e, agora, pelo petróleo. A imensa, incalculável riqueza cultural não é, neste contexto, relevante. Transformaram a ilha numa zona off-shore, onde todas as marcas sonantes internacionais marcam presença na paisagem urbana, num arremedo de montra triste e cosmopolita. E sabe-se que estas coisas de riquezas e ocupações andam ligadas e mal começaram.


Chipre, país cobiçado.

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Nocturne No.20 "Reminiscences",F.Chopin (Maria João Pires)

25 comentários:

Maria disse...

Fico à espera de mais. Porque de Chipre conheço nada e tu contas de uma maneira tão bonita...

lino disse...

Não conheço Chipre, apenas alguma da história da ilha ocupada.
Beijinhos

Rosa dos Ventos disse...

Doloroso um país dividido, ocupado...
cobiçado!
Fico como a Maria...à espera de mais!

Abraço

Licínia Quitério disse...

Não sabia essa do off-shore que, penso, explica em parte o drama que os "fora" internacionais silenciam.

Graciete Rietsch disse...

Que linda e triste maneira de nos relatar a ocupação em Chipre, acompanhada por uma música totalmente adaptada à descrição.

Um abraço muito grande.

GR disse...

Chipre,as suas riquezas naturais e a cobiça do imperialismo.

Vamos ficar à espera de mais textos, tão cheios de poesia.
Velas fotos.

BJS,
GR

Daqui do lado disse...

Assim vimos e ouvimos. E mais.
E gostei de te ler. E mais gostarei.

M disse...

Especialíssimo este teu olhar/pensamento, Justine. A beleza de como vês e sentes. A música de Maria João Pires aqui um misto de consolo e de tristeza.

mfc disse...

A obsecação política leva a estas situações... e é a prova provada que ainda não ultrapassamos a fase de bichos!

Luis Filipe Gomes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luis Filipe Gomes disse...

As fronteiras são sempre dolorosas, mas são trágicas quando se erigem e dividem o que antes estava em harmonia e separam o que antes era junto e segregam o que era idêntico.
Espero que tenha sido boa a estadia.

greentea disse...

QUE ESTRANHAS FORMAS DE VIDA (CO)EXISTEM AGORA ... seja em Chipre , na Grácia , no Portugal de 2011 e por esse mundo fora.

Que bom ouvir Chopin e Maria João!

JPD disse...

Boa noite, Justine

Estamos no Sec. XXI e ainda não parece ser possível deitar abaixo alguns muros.
Ainda há países que têm necessidade absoluta do inimigo perene para (se) afirmarem uma certa hostilidade.

Bjs

R. disse...

E é como bem dizes, cara Justine: a tamanha ocupação soma-se o silêncio cúmplice da comunidade internacional, demasiado comprometida com a manutenção egoísta de interesses próprios. Uma comunidade tantas vezes hipocritamente justiceira e, outras tantas, desassombradamente conivente com a injustiça. Não há dúvida que é de paradoxos que se faz o mundo.

Um abraço grato pelo alerta e pela partilha.

Mar Arável disse...

Na verdade

aqui
não somos um deserto isolado

trepadeira disse...

Que desejo e saudade de a ouvir em Belgais.

Também quando escorraçam os nossos,mesmo os melhores,estão a erguer fronteiras.

A ganância acabará por matá-los,espero.

Um abraço,
mário

vovó disse...

triste demais!
belo demais, o que nos deixas aqui!...


beijocassss
vovómaria

Sara disse...

Quando por lá estive, e enquanto jantávamos ao ar livre, passou uma pequena procissão. Várias mulheres e alguns homens empunhavam velas e fotografias de familiares desaparecidos. É algo que nunca mais se esquece, são rostos que nunca mais nos saem da memória.
Amargos, dizes bem.
Um abraço.

Clarice disse...

Mais uma vez política, religião e ganância criam o horror e a tristeza.
Um belo modo de apresentar a situação tão triste, com fotos significativas e informações nem sempre lembradas.
Esse Noturno do Chopin é apropriado demais ao tema.
Bom final de semana.

intimidades disse...

o nosso mundo ainda esta cheio de hipocrisias, apesar de ligeiramente escondidas

Bjinhos
Paula

Lilá(s) disse...

Não conheço Chipre, apenas vou lendo umas coisas.
Bjs

Há.dias.assim disse...

Chipre, país cobiçado...
com esta frase respondeste a tudo, infelizmente é mais do mesmo!

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

É uma lacuna no meu roteiro. Visita provavelmente adiada para uma próxima encarnação...

bettips disse...

Ilha de culturas cruzadas, antigas - e um muro. Da hipocrisia dos povos comprometidos.
Lembro-me de um refugiado cipriota em Londres me ter dito com um certo rancor: "Por causa da vossa revolução, esqueceram a ocupação do nosso país".
(Eu própria me admirei na altura...)
Venho beber das fontes, literárias e poéticas - mas reais - destas viagens. Obrigada

Duarte disse...

Sempre os interesses criados pra não permitir que o povo viva placidamente.
No Museo Militar de Atenas esta historia das guerras vive...

Um grande abraço