terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A Árvore é Tudo


A árvore é tudo o que falta no céu
quando a contemplo.
Aconteceu há muito no recato
do meu livro de espantos e ternuras.
Tudo o que eu fizer, árvore,
será com a caligrafia dos teus ramos
bebedores de azul, da altíssima vibração
do azul na névoa das manhãs.
Ninguém conhece o teu perfil
quando os meus olhos não te alcançam
ou te desvias do meu corpo.
Os teus braços dizem berço e abraço
de outros braços de susto e perdição.
Por certo em teu redor dançaram maldições,
assobiaram pragas,  esconjuros.
Assim fazem os néscios a quem
dá sombra ao verão e lenha ao frio
e poiso às aves de qualquer estação.
Inúteis ameaças.
Em minha nuca a tua seiva escorre.
Árvore que eu invento nunca seca.
 
( in Os Sítios, Licínia Quitério, edição de autor)
.
Valsa para piano nº7, Op.64, F.Chopin (V.Ashkenazy)



15 comentários:

São disse...

Achei linda a derradeira frase do poema!

Bom serão.

jrd disse...

E há tantas árvores na floresta.

Abraço

Graciete Rietsch disse...

Lindíssimo texto.
E a música regressou. Que bom!!!!

Um beijo.

ERA UMA VEZ disse...

Eu sabia...
O meu pinheiro estava lá à minha espera quando sonhei a casa
e eu desenhei-a com ele dentro do jardim

era altaneiro
desafiante (enfim)
o primeiro a ver a luz do sol
ingénuo demais para saber
que em silêncio e perigosamente estava a destruir o enorme muro do lado
onde morava gente

eu sabia
que aquela seria a última noite
e um rol de inquietações levou-me o sono
era a recusa
o remorso
a minha ideia de traição para com o meu querido pinheiro
e o seu perfume

Fugi
voltei as costas
desci a rua apressada
coração apertado
e ao voltar já era ausência
era um espaço uma saudade

hoje cheguei aqui
sem saber como
fui "provocada"
lembrei o meu pinheiro
e o vinte e um de Janeiro
apeteceu-me escrever
e voltou a nostalgia
(foi nesse distante dia)

já não é tão angustiante
mas continua... sim continua a "doer"...

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

gostei muito desta árvore, Justine

João Roque disse...

É muito bom trazer poetas desconhecidos. É maior a partilha.

Anónimo disse...

Raizes, troncos, verdes
braços, azuis, céus,
folhas, flores, frutos,

abraços meus

para ti, para a Lícínia,
para o Chopin e o Ashkenazy

lino disse...

Belo poema!
Beijinho

Luis Filipe Gomes disse...

Bem amo as árvores e semeio quantas posso e não consigo plantar todas as que quero. As que invento e parecem sêcas verdadeiramente têm a folha caduca. As sêcas que conheço vejo-as mastros para as aves que pausam na viagem ou promontório ou atalaia.

Duarte disse...

ÁRVORES

Braços em busca de luz,

ramagens que se contorcem
douradas pelo sol intenso,

dum caloroso estio.

Plácidas no reencontro, 

duma prolongada noite.


De "Brotes de vida".


Um abraço bem grande

greentea disse...

LIIIIIIIIIIndo!

Gosto de abraçar certas árvores e de sentir a sua energia na palma das minhas mãos .

Zé-Viajante disse...

Voltei, Justine.
Vamos ver por quanto tempo,pois o desejo era ver tudo.Bj

OUTONO disse...

...um livro que guardo, com carinho!

Lilá(s) disse...

Que lindo! excelente texto para completar a beleza da imagem, que local é esse?
Bjs

Humana disse...

belíssimo poema.