quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

No Amanhecer de Ti



No amanhecer de ti cabem
todas as janelas
porque és a dimensão
onde as viagens são possíveis
e deixas uma sombra
de castelo encantado
na meia luz das salas
onde o teu corpo passa
dá-me a tua mão
e veste-me de ti
quero partir sem medo
quero partir sem mágoa
na estrada dos teus olhos
onde as pedras são de água.
(in O Despertar dos Verbos, Mário Domingos)
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Até sempre, meu Amigo Poeta.
Partiste sem medo
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Nocturno Op.32 No.9, Il Lamento e la consolazione, Chopin (Maria João Pires)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Duelos amigáveis


Tem sido assim há uns dias, aqui no jardim. Mas parece que é assim desde sempre, por esta altura do ano: a geada toma conta do território durante a noite, e devagar vai-se instalando, silenciosamente. Tudo lhe pertence por algumas horas.
Depois chega o sol, e com a sobranceria que lhe é inerente expulsa-a, conquistando o território que considera seu. A luta é contudo travada sem ira nem violência, e termina quase sem que se repare nela.
Até ao dia seguinte.
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While my lady sleeps, J.Coltrane, Trane's Blues

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O Despertar do Verbos



Os Meninos
Os meninos explicam a ternura
nos seus passos.
Entendem as histórias e os céus
e os doces e a sede e
os monossílabos e
a boca.
Os meninos não riem: são o riso
e são antigos, necessários,
de uma amorável loucura
e têm sede e
sem medo fitam-nos
nos olhos.
(in O Despertar dos Verbos, de Mário Domingos, Ed. Edium)
Tenderly, Bill Evans

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Viagens possíveis

Ainda hei-de comprar um sombrero, peço uma guitarra emprestada e sento-me aqui à sombra a cantar La Cucaracha...
Isto é que vai ser poupar dinheiro em viagens!
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Perdido, Duke Ellington

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A Sheba


A Sheba* está de esperanças! É uma vizinha simpática, que me cumprimenta, efusiva, sempre que lhe passo à porta. Hoje contou-me a novidade, com o brilho novo que mostrava no olhar e com a voz cantada com que me saudou.
Amanhã levo-lhe flores silvestres!
*lê-se chiba!
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Tenderly, Bill Evans

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Diálogo

-Achas que ela ficou aborrecida, Mounty?
-A Donaminha? Por ontem não ter recebido prenda? Não, ela não liga nada a essas coisas. Para ela foi um dia igual aos outros! Eu é que fiquei um pouco triste, Fazdedono...
- Não vejo porquê, passámos aqui um serão agradável, os três. Tu até estiveste a noite toda ao colo dela...
- Isso foi depois do jantar. Eu esperava algo especial para o jantar de ontem - sei lá, um bocadinho de fiambre, um paté de canard...
-Mounty Mounty, tu sabes que já não podes abusar!
-Era só ontem, Fazdedono, para ser diferente...
-Mas não foi!
-Pois não, mas eu gostava que tivesse sido - bastava um pouco de paté...
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My Funny Valentine, Gerry Mulligan Quartet with Chet Baker

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Com os Holandeses

“Depois, quem já viu o holandês de bicicleta desculpa-lhe todas as suas pachorras. As maravilhas de equilíbrio, as acrobacias de arrepiar, para ele aquilo é como o cavalo para o cossaco. Bebé ou quase centenário, matrona pesada, mocinha grácil, estudante cabeludo, burguês encorpado, mãe de dois filhos, juiz azedo, dama enchapelada, a nação senta-se sobre as duas rodas com um à-vontade e uma leveza que em outras ocasiões tão bem lhe ficaria, mas que então desgraçadamente lhe falta.
Quem não está habituado, eu nunca me habituarei, teme pela vida das anciãs que se esgueiram por entre o trânsito, montadas em veículos que datam da Grande Guerra, parando nos cruzamentos, ou diante de um obstáculo, com um curioso movimento em que o corpo, escorregando do selim e inclinado para trás, serve de contrapeso à velocidade e alivia o atrito dos sapatos que funcionam como travão.
Nenhuma descrição poderá dar ideia da sua virtuosidade, nem da fenomenal ligeireza com que elas se movimentam. E o que essas mulheres carregadas de anos executam no meio da rua, passaria noutras terras por um número de circo.”
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Com os Holandeses, J. Rentes de Carvalho
Ed.Quetzal, pag.145-146
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Move, Charles Mingus