sábado, 2 de agosto de 2008

Amizade Interrompida


Era assim que gostava de o encontrar. Sem premeditação nem combinações prévias, deixando aos humores dos deuses a escolha do local onde nos iríamos cruzar. E quando o encontro acontecia, VARIÁVEL no tempo mas sempre prenhe de alegria e descoberta, procurávamos um CASULO onde nos isolávamos do INFERNO da cidade, fosse ele um jardim ou a beira-rio, e entregávamo-nos a uma longa, lenta e sempre inacabada CONVERSA.

Falávamos então de todas as incertezas. Ele, NEFELIBATA sem o saber, estudava pássaros e contava-me como voava com eles. Eu, mais prosaica, acompanhava-o com o coração, sorria e reafirmava que iria salvar o PAÍS com o verbo e a raiva. Por ali ficávamos, convocando memórias e desejos, até à hora em que o LUAR se punha e as primeiras pinceladas da madrugada vinham INUNDAR o nosso silêncio cansado e fértil.

Naquele dia, contudo, ele estava diferente. Uma sombra desconhecida a embaciar-lhe o olhar, a quebrar-lhe a postura VERTICAL, a traçar-lhe reticências nas frases: que quando desprezamos o corpo ele se revolta e nos trai, que o seu corpo o ia trair - assim afirmavam os que sabiam de ciência certa. Não enunciou a palavra morte. Mas sobre nós escureceu uma nuvem de húmido VAPOR vinda do fundo do medo, envolvendo-nos num MOVIMENTO circular e paralisante. Ele, já recolhido num OSTRACISMO desistente. Eu, perplexa e atordoada. Infinitamente só, li nos seus olhos o adeus, e sorrindo chorei sem lágrimas a nossa amizade interrompida.


(Jogo das 12 palavras, in Eremitério)

36 comentários:

RESSACA disse...

Aqui nasceu o Espaço que irá agitar as águas da Passividade Portuguesa...

diz quem sabe (pouco) disse...

De novo digo, e persisto, e assino - "à Brel" -, que estes textos me parecem excelentes. Sobretudo porque, sendo um exercício, a partir e obrigando a inclusão de 12 palavras, a justine os consegue escrever com tal (que dizer?, como dizer?) consistência e fluência que, a não assinalar quais as palavras obrigatórias, de certeza não se descobririam as 12... vá lá, 1 ou 2 ou 3... talvez.
Se os outros participantes no livro têm semelhante qualidade... que grande livro de escrita em português (com ou sem acordo!).
Parabéns

Justine disse...

DIZQUEMSABE: Estou "babadíssima"! A sério! E vou dormir bem...

Rosa dos Ventos disse...

Fiquei em suspense até ao fim...e assim continuei!
Um belo pedaço de prosa ficcionada ...ou não!

Abraço

mariam disse...

mais um pequeno(grande) conto...pena não ter mais capítulos...
fiquei com a mesma pena no anterir...

sabe, este vosso jogo faz-me muito lembrar os últimos livros de prosa de «José Fanha» e seus amigos...(deliciosos, acho)

deixei-lhe um pedacinho do "meu" mar num seu post de Ag.07 mas acho que não viu!

bom fim-de-semana
um sorriso :)

mena m. disse...

Justine comovente e belo este teu texto, escrito a partir das 12 palavras escolhidas, o que o torna mais brilhante ainda...

Só tem um defeito: ficou a saber a pouco!

Mounty e que tal convenceres a tua dona a investir umas horitas da reforma na escrita?

Um beijinho

heretico disse...

nada sei desses jogos. sei que o texto é excelente. isso me basta...

Duarte disse...

As doze palavras vão aparecendo com a mestria que só um sublime pode imprimir ao vocábulo. Dei fé disso desde o primeiro momento, do teu dão da palavra. Hoje fazes-nos uma demonstração da arte de escrever.
Ademais dá a sensação de que o fazes desfrutando, que ainda é melhor.
Impávido fiquei, ante tanta audácia, e desejando que nunca acabasse.
Fizeste-me muito feliz, claro que sim.
Um sorriso quando o que apetece é diluviar essa gota que não cai, essa humidade que não chega, quanto custa, como dói, a presença da ausência.

Um hurra

Fizeste-me feliz, que pena, foi breve, mas dura o que aqui ficou

Um grande abraço

Maria disse...

E um texto muito bonito e... sensível... tem a tua cara...
Estou ansiosa que surja o livro, para poder ler o conjunto de participações neste desafio.

Parabéns, Justine.

Um beijo

pinguim disse...

Gostei do conto quando o li; gostei mais ainda quando vi que se tratava de um "exercício" que tinha como fim, ligar as palavras assinaladas com maiúsculas; a pova foi superada com distinção.
Beijinho.

M. disse...

É como já disse noutro lugar: gosto muito!
E como alguém ali em cima disse, na verdade, sendo escrito a partir de 12 palavras sugeridas por outros, não damos por elas, de tal maneira estão naturalmente dentro do deslizar do texto. E a fotografia acompanha-o muito bem.

samuel disse...

É uma enorme maldade para com certos "escritores e escritoras", em alguns casos, tão reconhecidos...

Abreijos

Lúcia disse...

Ó Justine...isto...logo hoje...
Gostei, e tocou-me especialmente, esta tua brincadeira das 12 palavras.
bBeijos

Vieira Calado disse...

Uma beijoca.
Bom resto de fim de semana.

poesianopopular disse...

Justine
Dizes na respota a um comentário que , estás "babadissima" eu penso que devias estar "babadississississima"!
Abraço

mariam disse...

não Justine, não sou do Pico, sou Albicastrense e moro pertinho da costa Oeste...e procurei um belo mar seu p'ra deixar coment, só isso.
Bom resto de Domingo
um sorriso :)

Idun disse...

(mais um)excelente texto, cara justine. e este tocou-me profundamente. embora julgue que a sombra da morte paira sempre sobre nós mas que, distraídos com as cores mais vivas do existir, nem sempre dela nos apercebemos. a morte, porém, não interrompe nenhum laço de afecto mas, "apenas", alguns rituais de mútua e nem sempre explícita afirmação desse afecto.

ando com muito pouco tempo para a blogosfera mas soube-me bem passar aqui, observar a árvore em surpreendente abraço e voltar a constatar que os lugares de infância persistem em nós, mágicos e eloquentes.

marradinhas amistosas desta felina demasiado atarefada.

f@ disse...

Excelente história, emoção e criatividade...
Inspiração felina gato mto bonito
beijinhos das nuvens

~pi disse...

por tudo e pela música

lembrei-me [ revi

morte em veneza.




beijo



~

Delfim peixoto disse...

Um breve adeus apenas?
ABraço

Anónimo disse...

senhores ouvintes!!!!...

Justine!!!
é mesmo MESTRA nisto!!!!
Parabéns :)!
beijocassssss
vovó Maria

Fernando Samuel disse...

No entanto, insisto: com essas (ou com outras) doze palavras, o texto é muito belo...

Um beijo.

dona tela disse...

Apresento-lhe a minha nova faceta.

Abraço respeitoso.

TINTA PERMANENTE disse...

Excelente história sobre (com) doze palavras!...

abraços!

JPD disse...

Olá Justine

Acho que resolveste bem o jogo das palavras.

A distribuição está equilibrada e o enredo não parece ressentido da norma de utilização das palavras.

Bjs

Benó disse...

Gosto muito da história que, agora isolada, tornei a ler. Ganhou outro impacto e consistência.
Parabéns pela tua fascilidade descritiva.

Um grande abraço.

Teresa David disse...

Este texto fez-me lembrar o meu mais romoto amigo que conheço desde os meus 9 anos, estamos sempre a encontrar-nos e a perder-nos, mas já nem ligo que sei que um destes dias reaparecerá.
Bjs
TD

mdsol disse...

linda Justine:
Mais uma vez não só resolves o desafio, como desafias a tua imaginação e boa escrita...
beijinho
:)

Mar Arável disse...

O corpo por vezes não obedece

é preciso dar-lhe mais oportunidades

Fa menor disse...

Eu acho este teu texto de uma beleza soberba! Parabéns, amiga!
E a imagem que escolheste para o ilustrar cativou-me!

Beijinho

BlueVelvet disse...

Justine, que magnífico texto.
Imagina que não sabia que também fazias parte do jogo:)
Eu só escrevi para o 1º.
Com muita pena minha, mas não tive tempo.
Parabéns. Bem podes estar babada.
Beijinhos e veludinhos

mariam disse...

boa semana
(acho que ainda há ar dentro daquele onde estou...ainda cabe...ou ofereço-lhe outro..."toca a flutuar" também!)~~~~


fique bem
um grande sorriso :)

bettips disse...

Transfiguras.
Os sentimentos, tens esse dom de reflectir a luz...
Bjinho

um Ar de disse...

Também pouco me são, estes jogos, mas o pequeno conto [será só ficção?...] é muito bom.
.
De tristeza para outra, revi uma despedida de uma minha amizade interrompida... e pergunto-me, por mera curiosodade [quiçá mórbida...] se não será autobiográfico?
.
[Beijo para a autora e para todos os amigos e amigas que nos deixaram, com uma amizade, assim...]

zé lérias disse...

Este texto não é prosa bem escrita, é bonito texto de amor buscado nas profundezas da mais pura poesia.

Saúdo-a

Bill Stein Husenbar disse...

Fiquei preso ao texto. Suspense até à última palavra.

Intenso.

Parabéns.

http://desabafos-solitarios.blogspot.com/