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domingo, 7 de março de 2021

Dinheiro


 Origem de tanto crime, razão de ganâncias e faltas de ética, necessidade absoluta na nossa vida…e contudo sem peso, como nos diz Gonçalo M. Tavares pela boca de um personagem no seguinte passo de Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, pag.140, Porto Editora:

 Deixe-me dizer, parece uma invenção não humana. É mesmo isto. Sabe quanto pesa uma das nossas notas mais valiosas? Numa balança normal nem sequer se assinala a presença de alguma coisa. Nada, a balança não mexe. Nada mesmo, é absolutamente espantoso, como se ali não existisse NADA. Mas está. Uma nota das nossas mais valiosas…”

Há muito não se me deparava uma metáfora tão forte, tão expressiva, tão veemente, neste tempo em que a linguagem empobrecida perdeu luminosidade!

. Money, Pink Floyd

 



domingo, 28 de fevereiro de 2021

Caminho


 O caminho que nos coube percorrer é tortuoso, nada melhor que um poeta para nos ajudar a percorrê-lo:

Caminante, son tus huellas

el camino y nada más;

Caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

Al andar se hace el camino,

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino

sino estelas en la mar.

(Provérbios y Cantares XXIX, in Campos de Castilla, Antonio Machado)

.

Caminito del indio, Atahulpa Yupanqui






domingo, 21 de fevereiro de 2021

Amanhã


 Amanhã é ansiedade, insegurança, desnorte, medo. 

Mas também é esperança, sonho, caminho, futuro. Que cheguemos a amanhã!

. Where have I known you beforeReturn to Forever, Chick Corea


 

domingo, 19 de março de 2017

Passeio à beira-mar

 
 

Sem dúvida o inverno e a primavera são as melhores épocas para passear à beira-mar: o areal vazio pertence-nos, a arrogância do mar transforma-se em beleza inexcedível, a luz suave do fim da tarde apazigua todos os nossos fantasmas interiores.

.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Jornal de Parede

Procura-se jovem mulher, cheia de sonhos e de projectos,
dona deste mundo e do outro, e que foi vista pela última vez
 por volta de meados dos anos 60 do século passado.
Dão-se alvíssaras a quem a encontrar,
 de preferência de boa saúde!

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(PpP)
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Yesterdays, Miles Davis





domingo, 26 de outubro de 2014

Gosto da luz...


Gosto da luz violenta do sol ao meio-dia,
numa manhã de outono/quase verão,
a incendiar as folhas das árvores, a escorregar entre os ramos
e a desenhar uma mancha verde no chão.
 Só assim uma sombra faz sentido:
existe para amenizar a força do sol.
Complementam-se, sintetizam-se – como todos os contrários!
 
 
.
(PpP)
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Blue in green, John Coltrane/Miles Davis
 
 
 

domingo, 8 de junho de 2014

Será talvez...


Será talvez…exagero! É natural.
E compreensível.
 Até mesmo respeitável. Portanto, aceitável!
Quando se trata de orgulho de mãe, todos aceitam o exagero, mesmo que às vezes essa aceitação venha acompanhada de um sorriso complacente. Não interessa…
Será talvez…um enorme exagero,
 mas foi o melhor bife tártaro que comi
em toda a minha vida!
.
 
(participação no PpP de Maio) 
 
 

In your own sweet way, Sonny Rollins and The Modern Jazz Quartet

domingo, 12 de janeiro de 2014

A estratégia da aranha


A rendeira é minha conhecida de há tempos:
 gorda, escura, deselegante, antipática.
Não gosto dela, mas começo a desconfiar que ela gosta de mim...
Que outra razão poderia haver para que estas rendas - equilíbrio precário de luz e seda, exibição inverosímil de perícia e sabedoria -
me sejam deixadas à porta todas as manhãs,
senão a de serem um discreto pedido de amizade?
Acho que vou deixar enre(n)dar-me!
 
 
(PpP)
 
.
Sweet and lovely, Thelonious Monk/John Coltrane at Carnegie Hall
 
 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Aforismo


No circo da vida há, por vezes, 
momentos de beleza e de luz!

.
Come rain or come shine, Bill Evans Trio

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Triarquia



Com inúmeras faces, mas todas iguais: 
inexpressivas, falsas, indiferentes!
As aparências não nos iludem...
 
 
 
(Publicado, assim como os dois posts anteriores, em http://outrostemas.blogspot.pt -Palavra puxa Palavra, "um lugar de reflexão e de convívio", num jogo colectivo de palavras e imagens jogado por um grupo de amigos)







.
Minority, Bill Evans Trio



 



segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Os Muros


Os muros tanto podem ser obstáculos intransponíveis, dissuasores e opacos,
 como desafios irrecusáveis,
estimulantes e frutuosos.
 Os muros não têm realidade própria:
dependem sempre do meu estado de espírito!

.
These foolish things, Charles Mingus,(Mysterious Blues)




segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Que dizer dos espelhos...



Que dizer dos espelhos que,
 mal os olho,
 me devolvem um rosto de mulher idosa, preocupada e por vezes triste, quando eu sei que sou ainda aquela menina a saltar à corda no quintal, a correr atrás das borboletas e a sorrir mal chega perto do mar?
 Os espelhos só podem estar desfocados!
 
 

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(publicado no  programa de Dez.2012 no PpP)
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Yesterdays, Miles Davis
 
 
 
 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Solidões

 
 
Five o'clock Tear
Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher
coisa mais triste o seu vaivém macio
p'ra não amachucar uma invisível flor
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora

Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la

E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito

E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos

E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio
do silêncio colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes

Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada
.
in A Palavra O Açoite (1977), Emanuel Félix
 
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Valsa para piano nº7, Op.64, F. Chopin (V.Ashkenazy)


domingo, 17 de abril de 2011

Tão...


Tão sereno, tão livre e despreocupado ele era antes de ter herdado, por morte da Tia Gertrudinhas, a quinta e a mansão cheia de pratas e artes, origem dos seus actuais medos e insónias...

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(participação no passatempo PalavrapuxaPalavra) . Violin Concerto op3/6, Antonio Vivaldi

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Vigília

Noite de insónia. Insónia branca, com lampejos escarlate. Sobram-me braços e pernas, não sei onde os hei-de arrumar. A cama é demasiado pequena e um enorme campo de batalha. O tempo escorre-me pelos pensamentos em turbilhão, com ele a minha vida. Exausta, levanto-me aos primeiros sinais da manhã. Lá fora, os sons da cidade a acordar.
A realidade. A continuação da vigília.
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Brandenburg Concerto nº4, Andante - J.S.Bach