Foi como se já lá tivesse estado. Acordar de manhã, olhar o Mediterrâneo da janela do Cecil e o dia começava recordando Kavafis:
Deixem-me estar aqui. Que também eu contemple, um pouco, a natureza - o mar, nesta manhã, o céu azul sem núvens, de um e de outro a luz onde se alonga a amarela praia. Deixem-me estar aqui. Que eu pense que isto vejo (não é que o vi um instante, quando aqui parei?), Tudo isto só - e não, também aqui, visões, memórias, e os espectros do prazer antigo.) (1)
Depois, os dias foram escorrendo naturalmente, com os olhos escurecidos por um véu de nostalgia, mas o espírito atento à cidade viva.
É certo que a imagem mítica do Farol continua, invisível mas lá, no local onde agora se vê o Fort Käit-Bey; é verdade que consegui imaginar um magnífico palácio onde apenas resiste uma imponente coluna romana, no meio de um bairro popular. Mas o que eu procurava era um passado mais próximo:
era calcorrear a Rua Fouad (aquela que se chamava Rua Rosetta e que E.M.Forster dizia que ninguém sabe onde termina), saboreando edifícios e lojas até chegar ao museu;
era parar nos livreiros da Sharia Nabi Daniel, sem nada perceber do que estava a ler, mas lendo e percebendo com as emoções;
era perder-me nos bairros esboroados, sujos, nas vielas labirínticas e cheias de lixo, fervilhando de gente, de animais à venda, de gatos-deuses. Era embriagar-me com os cheiros, as gentes, os ruídos. Porque não há silêncio nas ruas da cidade: Alexandria é estonteante, caótica, amálgama de luz e sombras. Porque na cidade não há descanso: só excessos - de trânsito, de gente, de lixo, de beleza.
E tudo isto se harmonizava e fazia sentido quando, ao fim da tarde sentada no terraço do Cecil a saborear um chá, embalada pelo som hipnótico da voz do muezzin, via o sol mergulhar suavemente no Mediterrâneo.
Dias circulares, dias perfeitos.
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(1) O Mar pela Manhã, K.Kavafis, in 90 e mais quatro Poemas, Inova,tradução de Jorge de Sena, ed.Inova
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Almost like being in love, Sonny Rollins with The Modern Jazz Quartet
Alexandre Magno, num dia do ano 332 a.c., olhou para aquela língua de terra junto do Lago Mareotis e decidiu erigir ali a capital do seu império. Mas não era suficiente. Teria de ser a capital cultural do mundo. A ponte entreo Ocidente e o Oriente. Assim foi.
E hoje, passados estes 24 séculos, Alexandria é uma cidade de oito milhões de habitantes, fruto de contínuas miscigenações entre gregos, romanos, persas, judeus, árabes, arménios, sírios, franceses, ingleses e até alguns egípcios. Não admira que seja uma cidade cansada e intemporal, incompreensível, misteriosa, mística e mítica.
Onde me senti em casa.
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Almost like being in love,Sonny Rollins with The Modern Jazz Quartet
Noite de insónia. Insónia branca, com lampejos escarlate. Sobram-me braços e pernas, não sei onde os hei-de arrumar. A cama é demasiado pequena e um enorme campo de batalha. O tempo escorre-me pelos pensamentos em turbilhão, com ele a minha vida. Exausta, levanto-me aos primeiros sinais da manhã. Lá fora, os sons da cidade a acordar.